20 de novembro de 2017

[Entrevista] João Paulo Foschi

Olá, leitores queridos!

No post de hoje, o Blog Pacote Literário traz uma entrevista especial com o autor parceiro do blog, João Paulo Foschi!


Vamos conhecer um pouquinho mais sobre ele?!


1 - Quem é João Paulo Foschi?
R: O João Paulo Foschi é antes de tudo um nome literário, apesar de que o sobrenome do meu pai é Foschi (filho de italiano e espanhol). Entendo que somos pessoas diferentes: o João Paulo do convívio social não é o mesmo João Paulo, escritor, com o qual o leitor terá contato por meio do meu texto. Isso pode parecer simples, mas para muita gente é difícil separar a figura do artista da pessoa física, com suas qualidades e defeitos. Geralmente, o escritor tende a ser uma figura artística bem mais sacralizada do que a imagem que se tem de um ator, cantor, etc.

2 - Quando e como começou a escrever?
R: Sempre gostei de rabiscar papel e inventar pequenas histórias. No meu último ano do 2º grau (hoje ensino médio) em 1997, fiz um trabalho de geografia intitulado “Diário do Astronauta”: uma narrativa no qual eu era personagem, junto com os demais colegas da minha equipe, vivendo algumas aventuras no espaço. O trabalho tirou nota 10, e estava tão bom que nós colegas de equipe resolvemos sortear para ver quem guardaria a “relíquia”. Infelizmente, não fui eu quem ganhou, mas uma colega e amiga que hoje mora em Roraima. Mas graças a Deus, eu sei que com ela o trabalho deve estar bem guardado...

Depois disso, só em 2004, numa época meio conturbada, é que voltei a escrever; desta vez poesias, das quais algumas, posteriormente, foram publicadas em algumas antologias poéticas. Naquele período, nem me ocorria a intenção de escrever um romance, o que só veio a acontecer mesmo em 2013, enquanto eu fazia a faculdade de Letras. Foi aí que comecei a rascunhar “A Condessa de Assis”.

Depois disso, em 2016, escrevi minha primeira novela – “A Outra”, que foi lançada digitalmente através da Amazon, mas que atualmente está fora de circulação. Prefiro pensar na possibilidade de relançá-lo no formato impresso.

3 - Tem algum autor que considere uma referência para o seu trabalho como escritor?
R: Sempre há alguma referência/influência. Escritores brasileiros e portugueses do século XIX sempre me chamaram a atenção: José de Alencar, Bernardo Guimarães, Aluízio Azevedo, Machado de Assis, Eça de Queirós, Júlio Diniz, etc. Durante o curso de Letras (minha habilitação é em Língua Francesa), tive contato com autores do quilate de Voltaire, Victor Hugo, Bernardin de Saint-Pierre, Madame de Lafayette, Diderot, Balzac, Flaubert, Maupassant, etc., que ampliaram o meu horizonte de perspectiva literária; mas eu sei que tem muita coisa boa por aí, a ser descoberta, mesmo em nível de Brasil. Agora mesmo, para o mestrado em Literatura, estou pesquisando os romances regionalistas de Afrânio Peixoto (1876-1947), um escritor baiano de renome internacional que foi esquecido pela historiografia literária brasileira.

4 - Percebi que você tem habilidade para escrever romances de época, mesclando história e ficção. A escrita varia de acordo com a inspiração do momento ou você estabelece o estilo antes de começar a escrever cada um deles?
R: Machado de Assis afirmava em seu prefácio ao romance “Helena” (1876) que cada obra pertence ao seu tempo. Concordo com ele, pois, de fato, nada impede uma mudança no meu estilo de escrita e de ideias, o que já notei logo que comecei a escrever “A Outra” (2016). Perceba que entre este último e “A Condessa de Assis”(2013) há um hiato de quase quatro anos. Na novela “A Outra” há uma concepção totalmente psicanalítica, com as desventuras de uma mulher neurótica e apaixonada por um homem que não a ama.
Quanto a escrever romances históricos, acho que esse foi o grande mote para a minha estreia como romancista. Se eu não tivesse feito Pedagogia e Letras, eu gostaria de ser historiador. Na infância, sempre me senti atraído pelas aventuras de Indiana Jones, arqueólogo e investigador de civilizações antigas. Escrever narrativas de época, de certa forma, compensa essa minha “frustração”.

5 - Fale um pouco sobre "A condessa de Assis". 
R: “A Condessa de Assis” é um “revival” de romances do século XIX, a exemplo dos clássicos brasileiros e portugueses do nosso Romantismo/Realismo. No entanto, gosto de esclarecer que nada disso tem a ver com influência das obras de Jane Austen ou outros do gênero “vitoriano”, que estão em alta no mercado editorial. Nada contra quem goste dessas leituras, mas a minha proposta é outra: o brasileiro é muito carente de identificação e essa já era uma preocupação dos primeiros românticos, como Gonçalves Dias e José de Alencar. Tão preocupante é que, quando leitores brasileiros comparam meu livro a obras como “Amor e Preconceito” (Jane Austen) ou à série dos “Bridgertons” (Júlia Quinn) isso demonstra desprezo ou desconhecimento de que há bons livros desse mesmo estilo aqui no Brasil. 

Na verdade, até sei qual é um dos principais motivos geradores desse distanciamento: a imposição da leitura dos clássicos no colégio por causa do vestibular/ENEM. Os alunos veem com maus olhos tal imposição e isso acaba por afastá-los de leituras que deveriam ser feitas como um processo natural de formação do jovem leitor. No entanto, se serve de consolo, esse débito não é só nosso. Por exemplo, pergunte a algum americano comum se ele já leu “Moby Dick”, o grande romance americano, e veja que o resultado não será diferente do nosso...

Fechando o parêntese, é essa a intenção de “A Condessa de Assis”: mostrar que por trás da história de uma jovem ambiciosa se ocultavam importantes questões políticas e sociais que estavam em ebulição no Rio de Janeiro. Lorena, a protagonista, presencia a assinatura da Lei Áurea e foge do país enquanto o Brasil é vítima de um golpe militar que instaura a República.


6 - Tem algum personagem favorito em algum de seus livros ou um com quem mais se identifique? 
R: Tudo que escrevo tem algo do João Paulo Foschi. Gustave Flaubert tornou célebre a declaração: Emma Bovary c’est moi! (Emma Bovary sou eu!) atribuindo a si a responsabilidade pela descrição da protagonista de “Madame Bovary”, sua obra-prima. O crítico literário Harold Bloom afirma que todo escritor deseja despersonalizar-se e desprende-se de sua ficção; mas parece que quanto mais a gente nega, mais fica evidente a marca da nossa “digital” no texto... Eu gosto de todos os personagens que criei, porque são parte de mim, não havendo um mais importante que o outro.

7 - Qual o seu próximo projeto?
R: Assim como o Tomo I, o segundo volume de “A Condessa de Assis” (“The Countess of Assis”) está sendo traduzido para o inglês, o qual estará disponível na Amazon e nas demais plataformas digitais no início de 2018, e, por enquanto, apenas no formato de e-book. A narrativa completa de “A Condessa de Assis” encontra-se também disponível na rede social Wattpad.

Estou escrevendo um novo romance histórico (ainda sem previsão de concluir) e, sim, com outros projetos literários, os quais, só aos poucos, é que se farão conhecidos do público.

8 - Deixe um recadinho aos nossos leitores.
R: Quero agradecer primeiramente ao blog Pacote Literário pela parceria, e aos leitores de perto e de longe que apreciam “A Condessa de Assis”. Desde a tradução do livro para o inglês, tenho recebido manifestações de apreço de vários lugares do mundo através da página do romance no Facebook.

Valorizemos a literatura nacional, pois é ela quem nos identifica. Se não a amarmos, quem amará?



João Paulo, o Blog Pacote Literário agradece pela entrevista! Reiteramos nossa admiração pelo seu trabalho e lhe desejamos muito sucesso !!!




17 de novembro de 2017

Um pouquinho de Paulo Leminski


Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.


Paulo Leminski (1944-1989) foi um poeta, escritor, tradutor e professor brasileiro. Fez uma poesia sem compromisso, consagrou-se com “Catatau”, obra “maldita” marcada por exacerbado experimentalismo linguístico e narrativo.


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